Voz

Bastariam dois sentidos: a sua fala, a minha audição. Bastaria uma voz que entraria pelos meus ouvidos e me faria contrair todos os músculos numa vontade irrefreável de querer ser invadida. Em todas as posições, com todos os fetiches. E com áudio.

De olhos e boca fechados, enxergando o que um timbre desenha, sentindo o sabor que cada entonação propõe. Meu tato se perde corpo afora, e me banho com toque de cada palavra, com o tom firme de como as frases soam dentro de mim.

Uma risada que me provoca, me encharca e me deixa sem ar. E então minhas pernas se entrelaçam querendo segurar o imaginário sexual que corre pelos segundos de cada conversa.

Gravaria sua voz numa faixa para me ligar.

Usaria suas pausas para respirar.

Daria o play para me fazer tocar.

E mesmo que acabasse o disco, seu silêncio deixaria sempre uma vontade de repetir seus sons. Bastaria uma voz pra criar a trilha sonora que embalaria meus orgasmos até minha energia se esgotar.

Dedos

Seus dedos abrem caminhos, zíperes e botões. Seus dedos se entrelaçam nos meus, prendem as mechas curtas dos meus cabelos, enquanto você me puxa para si. Seus dedos percorrem a pele dos meus ombros, se fecham em meu pescoço enquanto seus lábios me beijam.

Seus dedos cobrem os relevos dos meus seios. Apertam meus mamilos, antes que sua boca os provoque com as suaves mordidas. E seus dedos seguem descendo. Desenham minhas costelas, descansam em minha cintura, pra continuar a me desbravar. Dedos habilidosos ao buscar meus pontos fracos.

Seus ágeis dedos me movem. Se encaixam em minhas curvas e cavidades, me adentram e me afloram. Me acendem e me desligam do mundo. Seus dedos escrevem no meu íntimo, deixam uma poesia gravada nos meus gemidos. Seus dedos me contorcem, me derretem, me tiram do controle e me mantêm na palma da sua mão.

Clique

Escolha suas lentes. Ou me fotografe a olho nu. Luz natural, quente ou fria. Luz apagada. Basta que o seu toque dê o clique certo, e meu corpo se acende.

Ensaie palavras de comando e eu enceno a pose. Ou a posição, o que você preferir. Desde que o prazer seja o foco. De perfil. De bruços. De lado. Você só precisa determinar o ângulo, e nossos corpos cuidam do encaixe perfeito.

Me enxergue com as pontas dos dedos e grave um retrato mental das minhas texturas e curvas. Capte meus olhares, expressões, movimentos. A pele arrepiada. O suor em finas linhas, do pescoço ao ventre. A tensão nas minhas coxas, o desalinho nos meus cabelos. A sombra das covinhas na base da minha coluna. O friso dos lençóis entre os meus dedos.

Me transforme numa imagem cheia de brilho, enalteça meus contrastes, e me deixe saturada. A sessão só termina quando formos o reflexo de uma natureza morta – de prazer.